Lark
10 de agosto, 2026
Meu pai tinha uma coleção de selos, que infelizmente se perdeu. Minha mãe tem uma coleção de discos de vinil, que eram do pai dela. A coleção de cartões telefônicos da minha mãe acabou se perdendo também. Eu lembro de colecionar os tickets de cinema toda vez que eu ia ver um filme.
| JORNALZINHO DA LARK | EDIÇÃO #16 • AGO2026 |

Meu pai tinha uma coleção de selos, que infelizmente se perdeu. Minha mãe tem uma coleção de discos de vinil, que eram do pai dela. A coleção de cartões telefônicos da minha mãe acabou se perdendo também. Eu lembro de colecionar os tickets de cinema toda vez que eu ia ver um filme. Eu parei de colecionar quando os tickets viraram só um canhotinho com uma impressão que não durava nada. Eu já tive várias outras coleções, porque eu gostava de objetos físicos específicos, mas pensando agora, é porque esses objetos, essas coisas, têm um valor recordatório. Elas evocam outros tempos e te lembram de momentos e sensações específicas de quando você adquiriu cada uma delas.
No livro A Polícia da Memória, da Yoko Ogawa, existe uma ilha onde coisas somem. Um dia as pessoas acordam, e ninguém mais lembra dos perfumes, por exemplo. Ou de instrumentos musicais, ou de pequenos cacarecos como tickets, selos e fitas. Essas coisas desaparecem fisicamente da ilha, e num nível intangível também da memória das pessoas. Ao longo dos anos, a vida das pessoas vai se tornando rala, apática e sem sentido, a medida que coisas desaparecem e não surgem coisas novas em quantidade suficiente para ocupar o lugar das que sumiram. Um personagem, chamado R, não consegue esquecer. Ele vive num esconderijo onde guarda seus pequenos tesouros: romances, uma esmeralda, uma caixinha de música…

Embora o livro tenha sido publicado muito antes do surgimento dos smartphones, eu não consigo deixar de traçar um paralelo com o sumiço das coisas. A gente não tem mais discos de vinil, porque a música é digital. Não temos mais selos porque as mensagens são digitais, não temos cartões telefônicos porque as chamadas são digitais, não temos tickets de cinema porque os ingressos são digitais, e nessa mesma lógica vamos perdendo relógios, calendários, bússolas, câmeras, agendas, canetas… e a lista continua.
Não é só saudosismo gratuito. Uma das coisas que vai indo embora junto com essas tralhinhas é o sentido do tato, porque não dá para manusear coisas digitais. Elas têm todas o mesmo peso, o mesmo formato, e a mesma textura, que são o peso, o formato e a textura do smartphone, e por isso a gente não cria valor sentimental com nenhuma delas. “O tato é constitutivo de todo relacionamento. Sem contato físico, não se formam vínculos”, diz Byung-Chul Han no seu livro Não-Coisas.

Eu tenho visto uma onda de retorno ao analógico, principalmente entre adolescentes e jovens que todo mundo jurava que iam viver a vida toda só no mundinho digital. Eu gosto de devanear que esse retorno prenuncia uma nova época de coisas físicas e analógicas, em que livros, calculadoras, cartas, fotografias, cadernos e todo tipo de atividade manual vão ter precedência sobre os seus correspondentes digitais. A parte mais realista e pessimista de mim contrapõe que, apesar de a gente não ter, como no romance da Ogawa, uma polícia que nos proibe de voltar a ter essas coisas, o fato de elas serem cada vez mais caras e inacessíveis em contraste com as coisas digitais cada vez mais baratas e práticas faz com que essa onda não dure muito. Talvez essa onda seja só uma breve canção de louvor, e como bem disse o Byung-Chul Han: “As canções de louvor às coisas são, na verdade, de despedida”. Paciência.
Ainda no tema sobre memória, o filme Ovelhas Detetives (uma obra prima!) trata o assunto de outra forma: as ovelhas têm o poder de decidir esquecer um evento traumático ou doloroso. Com exceção do Carneiro Mimoso que sofre da rara condição de não conseguir esquecer nada, todas as ovelhas podem escolher lembrar ou esquecer. Só que muito do que elas decidem esquecer não são coisas ruins, mas coisas boas que elas tiveram e não podem ter mais. É a ausência delas que dói, que faz as ovelhas optarem pelo analgésico do esquecimento. Porém, escolher lembrar se prova a opção responsável; a mais doída, sim, mas também a que traz o conforto e a compreensão que apenas as memórias contém. Não à toa, o Carneiro Mimoso é a ovelha mais sábia do rebanho.

Ter e guardar coisas é como ter e guardar memórias. Por mais saudosista, sentimental, inconveniente e não prático que pareça esse apego às coisas físicas, eu me sinto irresistivelmente inclinada a isso. Eu sei que eu vou me apegar ao último resquício das coisas analógicas, à última nota dessa canção de despedida, como uma maldita romântica. Eu ainda quero pegar e sentir as coisas com as minhas mãos, quero guardar onde eu vá achar um dia e ser atingida por uma enxurrada de memórias, e sentir a dor, e colher a sabedoria que elas me oferecerem. Num mundo cada vez mais digital e menos tátil, eu quero dar orgulho para o Byung-Chul Han, e o R, e o Carneiro Mimoso. Eu escolho lembrar.

N O V I D A D E S
O terceiro (e último!) livro da série dos fantasmas já está em produção, e tudo indica que vamos começar os envios em meados de setembro para os apoiadores do Catarse!
E quem não apoiou mas ainda quiser adquirir o livro, assim que todas as entregas forem feitas, ele estará disponível no site também!
Bom, terminado esse trabalho… e agora?
Eu estou naquele limbo de não saber direito o que fazer em seguida. Eu tenho muitas ideias, mas preciso escolher só uma ou duas delas pra executar. Ainda estou me decidindo sobre a ordem de prioridade.
O que eu posso dizer por enquanto é:
1) desenhar as tirinhas de divulgação do livro novo me deu muita saudade de desenhar tirinha de passarinho. Muita mesmo.
2) Esses dias eu escrevi o roteiro de três capítulos de uma graphic novel. O título dela é “Maru foge”. Por acaso, nessa história também vai ter vários objetos e coisas que vão servir de mementos para a protagonista.
3) Num tópico não relacionado com quadrinhos, eu tenho voltado a pintar com tinta acrílica e a fazer umas colagens. Aliás, se você estiver em Curitiba, no dia 14/08 (nessa sexta-feira) vai ter uma pequena exposição com essas pinturas e também quadrinhos, lá no restaurante Marco Zero (R. Júlio Perneta, 407 - Mercês).

Também vou levar umas coisinhas pra vender!
E V E N T O S
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Até a próxima!
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