Lark
23 de setembro, 2026
“Nós queimamos uma mulher com seus livros”, o Montag diz para a sua esposa, tentando explicar porque ele se sente nauseado e fraco.
| JORNALZINHO DA LARK | EDIÇÃO #17 • SET2026 |

“Nós queimamos uma mulher com seus livros”, o Montag diz para a sua esposa, tentando explicar porque ele se sente nauseado e fraco. Em Fahrenheit 451, uma distopia escrita por Ray Bradbury, a existência de livros é proibida. Montag é um funcionário responsável por queimar livros encontrados e levar presos seus proprietários. Um dia, uma mulher cujo estoque secreto foi encontrado se recusa a deixar a casa, e morre queimada junto com seus livros. Essa cena fica tatuada na mente do Montag.
“Você devia ter visto ela (…). Deve ter algo nos livros, algo que a gente nem imagina, para fazer uma mulher ficar numa casa pegando fogo. Tem que ter algo ali. Você não fica por nada.”
Nas distopias, fictícias e reais, sempre parece ter uma fogueira de livros. Parece um passo inevitável na decadência da humanidade o ato de destruir ideias e as coisas onde as ideias estão impressas. É claro que a gente não acorda um belo dia com a polícia do nada incinerando uma pilha de livros, nem em Fahrenheit 451 isso acontece. O capitão dos queimadores de livros explica que tudo começou com os resumos: livros foram encurtados para caber num artigo (pra ser mais fácil de ler), depois em uma coluna de 2 minutos de leitura, depois em um resumo do tamanho de um verbete de dicionário. Tudo o que se julga importante saber é a trama geral e como a história termina, e então aquele monte de páginas e capítulos, e descrições e romantizações e divagações dos autores se torna indesejável e descartável.
Mas tem que ter algo nos livros. Algo pelo que uma mulher ficaria numa casa pegando fogo. Algo pelo que morrer.

Nós ainda não estamos queimando livros. Mas há tempos que dá pra só assistir um vídeo de resumo de algum livro em vez de ler ele. Hoje dá pra pedir pra IA resumir o conteúdo também. A posse de livros também deu uma flexibilizada: é possível “ter” só os pixels das letras num kindle (“ter” entre aspas porque em muitos casos o que se tem é só o acesso virtual, não é nem sequer o arquivo). Volta e meia se proibe algum livro em alguma escola. E agora tem essas empresas de IA cortando a lombada de livros, escaneando o conteúdo para treinar os robôs e depois destruindo o que sobrou. O que na minha opinião é próximo o suficiente de queimar. Mas não estamos queimando ainda. Ainda.
E no entanto, tem algo nesses livros. Tem que ter algo. Algo pelo que algumas pessoas se revoltam. E protestam. E sofrem, e choram. E pagam caro, e colecionam, e usam seu precioso tempo para ler e reler, algo pelo que elas se reunem e formam clubes para ler juntas e conversar sobre, e deixam exemplares na mesa de cabiceira e ao alcance da mão como um totem ou como um guardião da memória. Algo pelo que morrer, algo pelo que viver.
E não é só as palavras na ordem em que elas estão e no sentido que elas carregam. É algo nas entrelinhas, que só existe nessa fagulha de compreensão de quando um ser humanos leitor lê o que um ser humano escritor escreveu. Totalmente intangível, mais ou menos inexplicável.
Ler não é fácil. É menos fácil ainda na era do vídeos de menos de 1 minuto de duração, na era onde quase tudo é digital. Ler leva um tempão, e tempo é dinheiro, dizem. Se concentrar é muito difícil, muito mesmo. E, vamos ser honestos, às vezes ler é muito chato, e dá muito sono. Sem falar que livro é caro. E ocupa muito espaço. E tem tantos outros empecilhos que parece nem valer o esforço de tentar criar gosto pela coisa.
Mas tem algo nos livros. Tem que ter.
E V E N T O S
A Bienal do Livro de São Paulo começa nessa sexta, dia 04, e vai até o dia 13! Eu vou participar pela primeira vez desse evento, e vou estar na mesa 04 da Alameda dos Artistas, bem pertinho da entrada, vendendo meus livros e outras coisinhas. Estarei todos os dias a tarde e a noite. Espero vocês lá!

Até a próxima!
| ||||||||||||||||
Comentários